Você
não acredita como eu me importei com você, como eu reparava nos teus
cacoetes, ouvia tua voz e pelo tom eu percebia como andava o teu humor,
como eu sabia bem dos teus horários, teus macetes, eu poderia ter
escrito teu diário, tanto que eu te conhecia. Martha Medeiros.
Tuesday, June 12
Monday, June 11
(…)
Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás,
costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua,
por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo
vontade de aproveitar a ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se
tivéssemos sofrido uma fratura exposta. Qualquer coisa pode servir de motivo.
Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper
arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por
dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria
existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em
que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de
questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não.
Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente
saudades do que descartou. Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que
estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a
passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da
minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está
trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com
um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente. Eu sorrio muito
mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem,
dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em
público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em
flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma
felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos
até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se
manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão
conosco mesmo, às vezes, se dá. Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar
faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento. - Martha
Medeiros
Thursday, June 7
Monday, June 4
Escrevo
isso e choro. Porque quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar
morro. Porque se não acabar morro. Porque sempre levo um susto quando te
vejo e me pergunto como é que fiquei todos esses anos sem te ver.
Porque você me entedia e dai eu desvio o rosto um segundo e já não
aguento de saudade. E descubro que não é tédio mas sim cansaço porque
amar é uma maratona no sol e sem água. E ainda assim, é a única sombra e
água fresca que existe. Mas e se no primeiro passo eu me quebrar
inteira? E se eu forçar e acabar pra sempre sem conseguir andar de novo?
Eu tenho medo que você seja um caminhão de luz que me esmague e me
cegue na frente de todo mundo. Eu tenho medo de ser um saquinho frágil
de bolinhas de gude e de você me abrir. E minhas bolhinhas correrem cada
uma para um canto do mundo. E entrarem pelas valetas do universo. E eu
nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora. Eu tenho medo de
você abrir o espartilho superficial que aperto todos os dias para me
manter ereta, firme e irônica. Minha angústia particular que me faz
parecer segura. Eu tenho medo de você melhorar minha vida de um jeito
que eu nunca mais possa me ajeitar, confortável, em minhas reclamações.
Eu tenho medo da minha cabeça rolar, dos meus braços se desprenderem, do
meu estômago sair pelos olhos. Eu tenho medo de deixar de ser filha, de
deixar de ser amiga, de deixar de ser menina, de deixar de ser
estranha, de deixar de ser sozinha, de deixar de ser triste, de deixar
de ser cínica. Eu tenho muito medo de deixar de ser. — Tati Bernardi.
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